quarta-feira, 31 de julho de 2013

Aos mortos

Fotografia de Fernanda Prestes http://fprestes.blogspot.com.br/


Há buracos no passado, mas isso não me incomoda. Em cada um deles, vive um vivo-morto. Às vezes morre por conta própria ou por conta do destino. Noutras sou eu quem mata. Às vezes me dói na alma ter que matar, mas vou até o fim pra fazer o que precisa ser feito. É melhor assim, sei disso. E não me engano com qualquer sentimentalismo barato que brote de mim. Sou dura, sei disto também. E essa casca grossa não pode ser triturada facilmente. Tudo que eu quero é música boa e boa companhia. Não gosto de mortos-vivos. Se for assim, prefiro dançar sozinha. Vivos-mortos e mortos-vivos: descansem em paz e bem longe de mim!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Gotas de incompreensão

Sopor Aeternus http://www.soporaeternus.de/




Como de costume ela liga... Não! Ela não telefona! Deixa eu falar? Como eu tava falando, ela liga, como de costume... Como assim liga o quê então? Se tu parar de me interromper, tu vai entender! Sem querer ela começa a vazar. Vaza uma gota, vaza outra e depois outra. Ta entendendo? Então calma que tu vai entender. Ela vazou apenas algumas gotinhas. O que são algumas gotinhas, comparado ao oceano que ela carrega? Isso mesmo! Nada! Ou quase nada! O problema é que ela acha que é hermética! Ela acha, mas não é! Aí quando se deu conta que tinha vazado entrou em desespero! Hermético quer dizer completamente fechado, nada entra e nada sai, entendeu? Tu ouviu eu dizer que ela entrou em desespero? Entendeu porque ela entrou em desespero então? Como assim não ta entendendo porra nenhuma?! Quer que eu desenhe, caralho?! Mas que merda, não te conto mais nada...

domingo, 7 de julho de 2013

Propaganda de margarina

Cartaz de propaganda nazista
"Vocês certamente se lembram desta cena por tê-la visto em dezenas de filmes ruins: uma moça e um rapaz se dão as mãos e correm numa bela paisagem de primavera (ou de verão). Correm, correm, correm e riem. O riso dos dois corredores deve proclamar para o mundo inteiro e para os espectadores de todos os cinemas: somos felizes, estamos contentes de estar no mundo, estamos de acordo com o ser! É uma cena idiota, um clichê, mas exprime uma atitude humana fundamental: o riso sério, o riso 'além da brincadeira'.
Todas as Igrejas, todos os fabricantes de lingerie, todos os generais, todos os partidos políticos estão de acordo a respeito desse riso e todos se precipitam para colocar a imagem desses dois corredores risonhos nos cartazes em que fazem propaganda da sua religião, de seus produtos, de sua ideologia, de seu povo, de seu sexo e de seu sabão de lavar louça."
KUNDERA, Milan. O livro do riso e do esquecimento. São Paulo:Cia das Letras,2008.p.72