domingo, 15 de junho de 2014

Crônicas e Pontos de Vista



Não costumo colocar vídeos aqui neste blog, mas vou abrir uma exceção, para mostrar como foi que entrei em contato com as palavras do Eduardo Marinho. Este foi o primeiro vídeo que assisti desse cara.

Fiquei encantada com a experiência de vida dessa figura. Dar um giro de 180°, se desfazer de tudo pra ver qual é que é da vida, experimentar, aprender, vivenciar, enfim, achar um sentido pra própria existência. E quando eu digo “se desfazer de tudo” não estou me referindo só à grana. O que ele fez me lembrou o cara do Clube da Luta, que explode o próprio apartamento, numa perspectiva de que só quando se perde tudo é que se tem a possibilidade de fazer qualquer coisa. A isso se chama revolução, guinada, mudança total de direção. Curioso eu topar com o Eduardo justo quando penso em explodir alguns cômodos e fazer  uma reforma (não sou tão impetuosa quanto gostaria!).  Talvez porque na hora certa as coisas cheguem até nós, ou talvez porque a gente vai em busca quando sente necessidade, e se sente necessidade, é porque é a hora certa.  Enfim, escrevi para o Eduardo e pedi o livro “Crônicas e Pontos de Vista.”  Já no começo do livro eu senti um soco no estômago. Ele faz uma dedicatória ao pai que é linda e doída. “Lamentei cada grão da dor que minhas atitudes provocaram. Ninguém viu, ninguém sabe, ninguém acredita.” Antes de eu ler isso, tinha pensado que contrariar a família e ir em busca da própria verdade tinha sido algo muito fácil pra ele. Tentei imaginar o Eduardo aos dezoito anos, com toda a leveza que os dezoito nos proporcionam, e imaginei isso agora, aos trinta e cinco, e dizem que nossa memória vem sempre carregada de uma forte dose de nostalgia, que atenua e melhora o que quer que seja. Acho que esse Eduardo juvenil foi só imaginação minha, porque aos dezoito também temos coração e não somos muito diferentes do que, essencialmente, somos aos trinta e cinco e aos noventa. Por isso, Eduardo, te digo que eu acredito na tua dor.
Eduardo inicia o primeiro capítulo dando a letra para a “felicidade”, vamos dizer assim. “A expectativa indevida é a mãe de muitas frustrações.” Essa foi uma das mais importantes reflexões que eu tive lendo este livro. Ele diz algo como faça pelo prazer de fazer e tudo está certo. Ou seja, o mais importante é o FAZER, e não as consequências advindas deste fazer. Pode parecer uma coisa óbvia, mas eu não tinha conseguido pensar nisto antes de ler este livro. Identificar os anseios interiores e agir conforme eles, já é a realização. As consequências são meras consequências, e compreender isto profundamente, garante sua auto realização e evita frustrações.  Mais ou menos como sentir impulsos para semear e sair por aí jogando sementes pra tudo que é lado sem se importar se elas vão germinar ou não. Se elas germinarem, ótimo! Se elas não germinarem, ótimo também! Você está fazendo sua parte, e isso sim é que é realmente ótimo!  Aliás, essa foi outra coisa que fiquei pensando depois de ler este livro. Qual é a minha parte? Ou seja, qual a minha contribuição? Tenho pensado nisso e já cheguei a algumas conclusões.
“Um revolucionário, um evolucionário, qualquer um desejador de trabalhar por mudanças reais na sociedade e no mundo, precisa começar esse trabalho dentro de si mesmo, se quiser ter consistência nas ações externas.” (p.33) Isso é outra coisa que eu achei bem importante. A mudança SEMPRE acontece de dentro pra fora. O que tá fora, tá dentro também, e muitas vezes é difícil alcançar o que tá dentro. Difícil ou não, cada um sabe do seu, mas o Eduardo aponta a direção: o caminho é de dentro pra fora. Ele também me mandou um desenho do Gandhi, que ele faz com serigrafia, com uma frase do Mahatma que dá o que pensar: "É preciso ser a mudança que desejamos no mundo."

Você não sabe o que fazer? Eduardo também dá uma dica: “(...) a vida nos dá os sinais. Se não der, imagino a necessidade da decisão, da vontade. Mas em geral não vemos os sinais que estão ao nosso lado ou aparecem pela vida. Mas muito cuidado – quando, na procura, há uma vontade enorme de encontrar, acabamos achando onde não há.” (p.33) Concordo com ele plenamente, e também acho que a capacidade para fazer tal leitura requer uma disposição mais feminina, introspectiva e sutil. Se você não sabe ler dessa forma, eu acredito que é plenamente possível que você consiga aprender, basta voltar-se para dentro e ficar antenado. Talvez precise de um tempo e algum treino, afinal, aprender algo novo sempre requer tempo e algum esforço.
Eduardo também fala em “coletividades” em contraponto ao individualismo que permeia nossa sociedade. Somos todos parte da mesma coisa, sabe aquele esquema de que o micro tá no macro e vice-versa? Ele escreve: “Não trabalho para ver o resultado. Trabalho na direção do resultado que eu desejo, não para mim, mas para todo mundo. Conheci muita, mas muita gente trabalhando diretamente no aprimoramento do ser humano e da sociedade. (...) São exceções à regra em todos os lugares e tempos, pedras preciosas no cascalho humano, que distribuem brilho em seu meio , na coletividade à sua volta, seja na profissão que for ou em qualquer atividade.” (p.52) Ainda sobre isso ele escreve mais adiante: “É um grupo crescente de pessoas, sempre e ainda exceções à regra geral, que tem outro brilho nos olhos, uma vibração pessoal diferente, uma abertura na mentalidade que as diferencia da maioria (...) Da mesma forma que levou tempo para se formar essa estrutura social, leva tempo pra reformar, muitas gerações de instrução, de informação, de conscientização. Quem pretendeu mudar o mundo em uma vida, ou desistiu ou morreu cedo. Bem, acho que são duas formas de morrer.” (p.65) Eu também acho que são duas formas de morrer, e não quero morrer em vida nunca mais! Ainda sobre a coletividade: “ Dizem que o mundo é uma guerra, a vida é uma competição e que todos são adversários, em suas áreas. Mentira. Somos irmãos seguindo a aventura da vida, nos desenvolvendo e procurando formas de resolver nossos problemas, solidariamente. Somos gregários, precisamos de harmonia, não de competição. A mídia é que nos instiga uns contra os outros, com a idéia furada de ‘vencedor’ e ‘perdedor’.  Nossa união apavora seus patrões.  E a eficiência é tanta que mesmo entre os que se dizem revolucionários se vêem esses padrões de comportamentos e valores. Passar da competição à cooperação é um degrau da evolução humana.” (p.71)  
Tem um parágrafo que eu acho que resume bem o que o Eduardo Marinho pensa a respeito das diferenças sociais, que eu acredito que toda pessoa minimamente decente há de concordar: “Não é possível se orgulhar de uma sociedade que ostenta tanta barbárie, miséria e ignorância; ilhas de fartura e ostentação, privilégios e desperdícios para poucos, em meio a um mar de pobreza, de lutas insanas e vidas difíceis. Uma grosseria, uma vergonha, uma insensibilidade, uma desumanidade.” Além da crítica, Eduardo aponta novamente a saída: “É preciso questionar a sociedade, sua estrutura injusta, covarde, hipócrita e suicida, mas a partir de cada um de nós, dos nossos próprios condicionamentos. É preciso se questionar a si mesmo, para perceber como reproduzimos os comportamentos sociais induzidos, individualmente, nas nossas relações pessoais, em nossos valores, desejos e objetivos de vida.” (p.67)
Enfim, salientei algumas partes do livro, mas tem outras tantas muito interessantes também. Não quero contar o livro todo, a intenção era aperitivar e dividir a experiência que tive com a leitura. Sem dúvida o livro causa reflexão e nos dá algumas luzes, através do brilho da experiência  desta pepita chamada Eduardo Marinho. Deixo o endereço do blog pra quem quiser acompanhar, comprar o livro e outras artes ou trocar uma ideia com o cara.

MARINHO, Eduardo. Crônicas e Pontos de Vista. Rio de Janeiro: Navilouca,2011.