Seus quatorze anos já tinham lhe
ensinado algo, mas não tinham ensinado como controlar a ansiedade. Tinha
aguardado muitos dias pela festa, e enquanto sentia a água quente do chuveiro, um
contentamento alternava com um frio na barriga. Passou hidratante no corpo
todo, não para hidratar, mas porque o perfume era bom. Enrolada na toalha,
escovou os cabelos compridos sob o calor do secador. Vestiu a roupa nova e
olhou-se no espelho. Gostou do que viu, mas não se sentiu segura. Trocou muitas
vezes de roupa até que vestiu a roupa preferida. Agora sim, sentiu-se
confiante. Demorou uma eternidade na tarefa de delinear os olhos, nunca ficava
perfeito nas primeiras tentativas. O rímel era mais fácil, mas alguns cílios
insistiam em se unir, ao invés de ficarem separados, curvados e lindos! Passou
o batom vermelho, que na escala de dificuldade dos batons, é o pior,
definitivamente. Resolveu trocar o sapato, e trocou mais uma vez, e ainda
outra, para depois voltar à primeira opção. Olhou-se pela centésima vez no
espelho e concluiu que tudo tinha dado certo: conseguiu o melhor resultado que
poderia conseguir. Enfim, sentiu-se satisfeita. Ao cruzar a sala em direção à porta
de saída, o pai proferiu: -Parece uma puta! Seus quatorze anos não tinham
ensinado como controlar a ansiedade, mas muito antes dos quatorze tinha
aprendido que a vida pode ser cruel.
Não costumo colocar vídeos aqui
neste blog, mas vou abrir uma exceção, para mostrar como foi que entrei em
contato com as palavras do Eduardo Marinho. Este foi o primeiro vídeo que
assisti desse cara.
Fiquei encantada com a
experiência de vida dessa figura. Dar um giro de 180°, se desfazer de tudo pra ver
qual é que é da vida, experimentar, aprender, vivenciar, enfim, achar um
sentido pra própria existência. E quando eu digo “se desfazer de tudo” não estou me
referindo só à grana. O que ele fez me lembrou o cara do Clube da Luta, que
explode o próprio apartamento, numa perspectiva de que só quando se perde tudo
é que se tem a possibilidade de fazer qualquer coisa. A isso se chama
revolução, guinada, mudança total de direção. Curioso eu topar com o Eduardo
justo quando penso em explodir alguns cômodos e fazer uma reforma (não sou tão impetuosa quanto
gostaria!).Talvez porque na hora certa as
coisas cheguem até nós, ou talvez porque a gente vai em busca quando sente
necessidade, e se sente necessidade, é porque é a hora certa.Enfim, escrevi para o Eduardo e pedi o livro “Crônicas
e Pontos de Vista.”Já no começo do
livro eu senti um soco no estômago. Ele faz uma dedicatória ao pai que é linda
e doída. “Lamentei cada grão da dor que minhas atitudes provocaram. Ninguém
viu, ninguém sabe, ninguém acredita.” Antes de eu ler isso, tinha pensado
que contrariar a família e ir em busca da própria verdade tinha sido algo muito
fácil pra ele. Tentei imaginar o Eduardo aos dezoito anos, com toda a
leveza que os dezoito nos proporcionam, e imaginei isso agora, aos trinta e cinco, e
dizem que nossa memória vem sempre carregada de uma forte dose de nostalgia,
que atenua e melhora o que quer que seja. Acho que esse Eduardo juvenil foi só
imaginação minha, porque aos dezoito também temos coração e não somos muito
diferentes do que, essencialmente, somos aos trinta e cinco e aos noventa. Por
isso, Eduardo, te digo que eu acredito na tua dor.
Eduardo inicia o primeiro
capítulo dando a letra para a “felicidade”, vamos dizer assim. “A expectativa
indevida é a mãe de muitas frustrações.” Essa foi uma das mais importantes reflexões
que eu tive lendo este livro. Ele diz algo como faça pelo prazer de fazer e
tudo está certo. Ou seja, o mais importante é o FAZER, e não as consequências
advindas deste fazer. Pode parecer uma coisa óbvia, mas eu não tinha conseguido
pensar nisto antes de ler este livro. Identificar os anseios interiores e agir conforme
eles, já é a realização. As consequências são meras consequências, e compreender isto
profundamente, garante sua auto realização e evita frustrações. Mais ou menos como sentir impulsos para semear
e sair por aí jogando sementes pra tudo que é lado sem se importar se elas vão
germinar ou não. Se elas germinarem, ótimo! Se elas não germinarem, ótimo
também! Você está fazendo sua parte, e isso sim é que é realmente ótimo!Aliás, essa foi outra coisa que fiquei
pensando depois de ler este livro. Qual é a minha parte? Ou seja, qual a minha
contribuição? Tenho pensado nisso e já cheguei a algumas conclusões.
“Um revolucionário, um
evolucionário, qualquer um desejador de trabalhar por mudanças reais na
sociedade e no mundo, precisa começar esse trabalho dentro de si mesmo, se
quiser ter consistência nas ações externas.” (p.33) Isso é outra coisa que eu
achei bem importante. A mudança SEMPRE acontece de dentro pra fora. O que tá
fora, tá dentro também, e muitas vezes é difícil alcançar o que tá dentro. Difícil
ou não, cada um sabe do seu, mas o Eduardo aponta a direção: o caminho é de
dentro pra fora. Ele também me mandou um desenho do Gandhi, que ele faz com serigrafia, com uma frase do Mahatma que dá o que pensar: "É preciso ser a mudança que desejamos no mundo."
Você não sabe o que fazer?
Eduardo também dá uma dica: “(...) a vida nos dá os sinais. Se não der, imagino
a necessidade da decisão, da vontade. Mas em geral não vemos os sinais que
estão ao nosso lado ou aparecem pela vida. Mas muito cuidado – quando, na
procura, há uma vontade enorme de encontrar, acabamos achando onde não há.”
(p.33) Concordo com ele plenamente, e também acho que a capacidade para fazer
tal leitura requer uma disposição mais feminina, introspectiva e sutil. Se você
não sabe ler dessa forma, eu acredito que é plenamente possível que você
consiga aprender, basta voltar-se para dentro e ficar antenado. Talvez precise
de um tempo e algum treino, afinal, aprender algo novo sempre requer tempo e
algum esforço.
Eduardo também fala em “coletividades”
em contraponto ao individualismo que permeia nossa sociedade. Somos todos parte
da mesma coisa, sabe aquele esquema de que o micro tá no macro e vice-versa?
Ele escreve: “Não trabalho para ver o resultado. Trabalho na direção do
resultado que eu desejo, não para mim, mas para todo mundo. Conheci muita, mas
muita gente trabalhando diretamente no aprimoramento do ser humano e da
sociedade. (...) São exceções à regra em todos os lugares e tempos, pedras
preciosas no cascalho humano, que distribuem brilho em seu meio , na
coletividade à sua volta, seja na profissão que for ou em qualquer atividade.”
(p.52) Ainda sobre isso ele escreve mais adiante: “É um grupo crescente de
pessoas, sempre e ainda exceções à regra geral, que tem outro brilho nos olhos,
uma vibração pessoal diferente, uma abertura na mentalidade que as diferencia
da maioria (...) Da mesma forma que levou tempo para se formar essa estrutura
social, leva tempo pra reformar, muitas gerações de instrução, de informação,
de conscientização. Quem pretendeu mudar o mundo em uma vida, ou desistiu ou
morreu cedo. Bem, acho que são duas formas de morrer.” (p.65) Eu também acho
que são duas formas de morrer, e não quero morrer em vida nunca mais! Ainda
sobre a coletividade: “ Dizem que o mundo é uma guerra, a vida é uma competição
e que todos são adversários, em suas áreas. Mentira. Somos irmãos seguindo a
aventura da vida, nos desenvolvendo e procurando formas de resolver nossos
problemas, solidariamente. Somos gregários, precisamos de harmonia, não de
competição. A mídia é que nos instiga uns contra os outros, com a idéia furada
de ‘vencedor’ e ‘perdedor’. Nossa união
apavora seus patrões.E a eficiência é
tanta que mesmo entre os que se dizem revolucionários se vêem esses padrões de
comportamentos e valores. Passar da competição à cooperação é um degrau da
evolução humana.” (p.71)
Tem um parágrafo que eu acho que
resume bem o que o Eduardo Marinho pensa a respeito das diferenças sociais, que
eu acredito que toda pessoa minimamente decente há de concordar: “Não é
possível se orgulhar de uma sociedade que ostenta tanta barbárie, miséria e ignorância;
ilhas de fartura e ostentação, privilégios e desperdícios para poucos, em meio
a um mar de pobreza, de lutas insanas e vidas difíceis. Uma grosseria, uma
vergonha, uma insensibilidade, uma desumanidade.” Além da crítica, Eduardo
aponta novamente a saída: “É preciso questionar a sociedade, sua estrutura
injusta, covarde, hipócrita e suicida, mas a partir de cada um de nós, dos
nossos próprios condicionamentos. É preciso se questionar a si mesmo, para
perceber como reproduzimos os comportamentos sociais induzidos,
individualmente, nas nossas relações pessoais, em nossos valores, desejos e
objetivos de vida.” (p.67)
Enfim, salientei algumas partes do livro, mas tem outras
tantas muito interessantes também. Não quero contar o livro todo, a intenção
era aperitivar e dividir a experiência que tive com a leitura. Sem dúvida o
livro causa reflexão e nos dá algumas luzes, através do brilho da experiência desta pepita chamada Eduardo Marinho. Deixo o
endereço do blog pra quem quiser acompanhar, comprar o livro e outras artes ou trocar
uma ideia com o cara.
Esta semana decidi abandonar o Cemitério de Praga, do Umberto Eco. Li pouco mais de cem páginas e a coisa tava andando devagar, quase parando. Não sei exatamente por quê, o fato é que a leitura tava difícil. Eu fui insistindo, mas agora desisti. Achei que eu ia gostar, pois gostei do "O Nome da Rosa", mas este é bem diferente. Talvez eu retome mais adiante. Mesmo tendo lido poucas páginas, achei algumas coisas interessantes, que quero dividir.
Os judeus sob a ótica do avô do personagem:
"Meu avô me descrevia aqueles olhos que nos espiam, tão falsos que nos fazem empalidecer, aqueles sorrisos víscidos, aqueles lábios de hiena arreganhados sobre os dentes, aqueles olhares pesados, infectos, embrutecidos, aquelas dobras entre nariz e lábios sempre inquietas, escavadas pelo ódio, aquele nariz que parece o grande bico de uma ave austral... E o olho, ah, o olho... Gira febril na pupila da cor de pão tostado e revela enfermidades do fígado, corrompido pelas secreções produzidas por um ódio de 18 séculos, aperta-se em mil pequenas rugas que se acentuam com a idade, e já aos 20 anos o judeu parece engelhado como um velho. Quando sorri, suas pálpebras inchadas se cerram a ponto de deixarem apenas uma linha imperceptível, sinal de astúcia, dizem alguns, de luxúria, esclarecia vovô... E quando eu crescera o suficiente para entender, ele me recordava que o judeu, além de vaidoso como um espanhol, ignorante como um croata, cúpido como um levantino, ingrato como um maltês, insolente como um cigano, sujo como um inglês, untuoso como um calmuco, autoritário como um prussiano e maldizente como um astiense, é adúltero por um cio irrefreável - resultado da circuncisão, que os torna mais eréteis, com uma desproporção monstruosa entre o nanismo da corporatura e o tamanhão cavernoso daquela sua excrescência semimutilada." (p.13)
Sobre os padres:
"Os padres... Como os conheci? Na casa do vovô, creio; tenho a obscura lembrança de olhares fugidios, dentaduras estragadas, hálitos pesados, mãos suadas que tentavam me acariciar a nuca. Que nojo. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. O sujeito se faz padre ou frade só para viver no ócio, e o ócio é garantido pelo número deles. Se fossem, digamos, um em mil almas, os padres teriam tanto o que fazer que não poderiam ficar de papo para o ar comendo capões. E entre os padres mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia bispos." (p.19)
Sobre os homens e a religião:
"Os homens nunca fazem o mal tão completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção religiosa." (p.21)
Sobre a pornografia:
"Só que, certa noite, o mais licencioso dos nossos colegas revelou ter descoberto no sótão, bem escondidos em um arquibanco pelo seu desavergonhadíssimo e dissoluto pai, alguns daqueles volumes que em Turim eram então chamados (em francês) de cochons, e, não ousando exibi-los sobre a mesa untuosa do Gambero d'Oro, decidiu emprestá-los alternadamente a cada um de nós, de modo que, quando chegou a minha vez, não pude recusar.
Assim, noite alta, folheei aqueles tomos, que deviam ser preciosos e caros, encadernados como eram em marroquim, nervuras na lombada e rótulo vermelho, corte em ouro, fleurons dourados nas pranchas e - alguns - aux armes. Intitulavam-se Une veillée de jeune fille ou Ah! monseigneurs, si Thomas nous voyait!, e eu sentia calafrios ao folhear aquelas páginas e encontrar gravuras que me faziam derramar rios de suor, dos cabelos às bochechas e ao pescoço: mulheres de pouca idade levantando as saias para mostrar traseiros de ofuscante brancura, oferecidas ao ultraje de machos lascivos - e tampouco sabia se me perturbavam mais aquelas rotundidades despudoradas ou o sorriso quase virginal da jovem, que virava impudicamente a cabeça para seu profanador, com olhos maliciosos e um sorriso casto a lhe iluminar o rosto, emoldurado por cabelos corvinos dispostos em dois coques laterais, ou, bem mais terríveis, três mulheres em um divã que abriam as pernas, mostrando aquela que deveria ser a defesa natural do seu púbis virginal, uma oferecendo-a à mão direita de um macho de cabelos desgrenhados, que, enquanto isso, penetrava e beijava a desavergonhada vizinha, e, da terceira, ignorando-lhe a virilha exposta, abria com a mão esquerda o decote levemente licencioso, puxando-lhe o corpete. Depois encontrei a curiosa caricatura de um abade de rosto verruguento que, visto de perto, mostrava-se composto de nus femininos e masculinos variadamente enroscados e penetrados por enormes membros viris, muitos dos quais pendiam enfileirados sobre a nuca, como que para formar, com seus testículos, uma espessa cabeleira que terminava em cachos graúdos.
Não recordo como acabou aquela noite de sabá, quando o sexo me foi apresentado em seus aspectos mais tremendos (no sentido sagrado do termo, como o ronco do trovão que suscita, junto ao sentimento do divino, o temor do diabólico e do sacrílego). Recordo somente que saí daquela perturbadora experiência repetindo em voz alta, como uma jaculatória, a frase de não sei qual escritor de coisas sacras que, anos antes, o padre Pertuso me fizera decorar: 'A beleza do corpo está toda na pele. De fato, se os homens vissem o que está sob a pele, a simples visão das mulheres lhes resultaria nauseabunda: essa graça feminina não passa de sujeira, sangue, humor, fel. Considerem o que se escondem nas narinas, na garganta, no ventre... E nós, que não ousamos tocar sequer com a ponta dos dedos o vômito ou o estrume, como podemos então desejar estreitar nos nossos braços um saco de excrementos?'". (p.84)
O personagem não lembra de muita coisa e ao que tudo indica esse "esquecimento" tem a ver com a negação de sentimentos e acontecimentos que ele não tolera. Isso se torna particularmente interessante após o encontro do personagem com "Froïde":
"Naqueles anos (creio ter sido em 1885 ou 1886), conheci no Magny aquele que continuo a recordar como o doutor austríaco (ou alemão). Agora volta-me à mente o nome, chamava-se Froïde (acho que se escreve assim), um médico com seus 30 anos, que certamente só ia ao Magny porque não podia se permitir algo melhor e que fazia um período de aprendizado com Charcot." (p.47)
A trama parece muito boa. Umberto Eco, definitivamente, escreve muito bem. Por que não consegui terminar de ler? Boa pergunta! Fiquei pensando nisso enquanto transcrevia os trechos acima. Talvez seja um livro muito denso. O livro tem quase 500 páginas. Geralmente um livro de 500 páginas tem outro ritmo de leitura. Neste, a leitura anda devagar, pesada, concentrada. Talvez seja isso. Talvez não. Se você gostou dos trechos que eu transcrevi, vá em frente e leia. Não esqueça de me contar como foi a experiência.
ECO, Umberto. O Cemitério de Praga. Rio de Janeiro: Record, 2012.
Não me entenda
mal, eu acho essa história de amizade colorida bem interessante. Aliás, acho
até que foi uma das melhores coisas que já inventaram. Algum afeto, sexo e
nenhum compromisso. Perfeito!, principalmente para um porco-espinho como eu. Só
que amizade colorida não é possível com todo tipo de pessoa. É possível assim,
com pessoas que a gente não tá muito aí. Como assim? Se por acaso tu encontrares
com um amigo colorido e ele estiver com outra, sendo ela colorida ou não, nada
muda pra ti, entende? Essa situação não te afeta de modo algum, a vida continua
do mesmo jeito, inalterada. O mundo de dentro também segue, ileso. Só que
contigo é diferente. Acho que meu afeto por ti extrapolou as medidas. Dizem que
afeto não se mede, mas eu discordo. A ciência por mais evoluída que seja ainda
não inventou um instrumento para medir o afeto, mas eu acabo de criar uma
fórmula para quantificar a variável em questão. Não é uma fórmula como a de Bhaskara
e tal, na verdade não é bem uma fórmula. É mais um raciocínio lógico.
Raciocínio lógico é quase científico, não é? Lá vai: o afeto é diretamente
proporcional ao quanto tu é afetado. Nestas circunstâncias, se não te afeta
encontrar um amigo colorido com outra, significa pouco afeto pelo referido
amigo. Se te afeta muito encontrar um amigo colorido com outra, a ponto de
sentir convulsões no estômago, o peito esmagado, dificuldade para respirar e
vontade de chorar, gritar, correr, sumir, socar alguma coisa/alguém &
afins, isto denota muito afeto pelo amigo, logo a amizade colorida está
condenada.
Sim, eu sei
que homens e mulheres são diferentes. Os homens em geral são um pouco mais
discretos, jamais do alto de sua macheza se permitiriam demonstrar tal
destempero. Mas sentimento é sentimento, independe de gênero, eu acho.
Eu sei que tu
me entendes, bem no fundo eu sei que sim. E eu também te entendo, bem no fundo
eu sei que sim, embora às vezes pense que é uma crueldade tu ficar aí sentado
sobre as tuas verdades, sem ceder um milímetro. Mas aí me vejo sentada sobre as
minhas próprias verdades, incapaz de ceder também. Então considero que vai aí
nessa tua atitude algo como vai na minha, uma incapacidade de ir contra aquilo
que se sente e aquilo que se é. E fico pensando em como somos bem coerentes, eu
e tu, no que se refere a mim e a ti. Então ficamos assim, coerentes, sentados
sobre as nossas próprias verdades, incapazes de avançar um palmo na direção um
do outro.
É, pode até
ser, mas me ocorre outra coisa, aqui sentada. Fico pensando que se, ao me
imaginar com outro cara, tu não tenha tido nenhum indício de convulsões no
estômago, peito esmagado, vontade de gritar ou alguma dessas coisas todas, isto
denota pouco afeto por mim. Logo, a distância entre nós aumenta
consideravelmente, de alguns palmos para um abismo intransponível. Tudo bem,
acho que exagerei, nem é tão instransponível assim. Só que tem muito afeto do
lado de cá, e pouco afeto desse lado aí. Então transpor a distância, seja ela
grande ou pequena, não vale à pena. Adoraria ficar, como tu bem sabes, mas já é
tarde e eu preciso tomar o meu rumo. A gente se vê por aí.