domingo, 27 de janeiro de 2013

Comigo é assim


Imagem: Andreea "Cigaro" Anghel - http://cigaro.carbonmade.com/


Comigo é assim

Comigo é assim:
Caiu na rede, é peixe!
?

Comigo é assim:
Caiu na rede, é peixe!
?

Comigo é assim:
Caiu na rede, é peixe!
?

Comigo é assim:
Caiu na rede, é peixe!
?

Comigo é assim:
Caiu na rede, é peixe!
PUTZ! BALEIA NÃO É PEIXE!!!!

Emma Tommas

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Nos poços

Imagem: fime "Stalker" de Andrei Tarkovsky. Rússia,1979.



Depois que eu descobri o Caio Fernando Abreu, nunca mais larguei. E descobri que passar um final de semana lendo o Caio, direto, pode te levar pro poço do poço do poço do poço. O que é ruim, mas é bom!


"Nos poços
Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."
ABREU, Caio Fernando. O ovo apunhalado. Porto Alegre: L&PM, 2001. p.19
 

domingo, 13 de janeiro de 2013

Um copo de cólera



Imagem de Gerald Scarfe http://www.geraldscarfe.com/
in THE WALL.Direção de Alan Parker. Roteiro de Roger Waters.Reino Unido:MGM,1982.

Não costumo ler o mesmo livro duas vezes. Mesmo lendo cada livro uma vez só, tenho a impressão de que precisaria viver uns quinhentos anos, pra conseguir ler tudo o que quero. Talvez isto explique o fato de eu comprar muito mais livros do que consigo ler. Mas alguns livros são especialmente saborosos e, voltar a lê-los, é quase como exercitar o paladar, continuar a comer com a fome já extinguida, simplesmente porque é saboroso. É comer por prazer, e não somente para matar a fome. É degustar, matar a fome e ir além: lamber os dedos!  Já li três vezes a novela de Raduan Nassar “Um copo de cólera”. A primeira vez que li foi porque quis. As outras duas foram por acidente. Explico: mexendo na minha estante de livros, meus olhos percorrendo as lombadas, param por um momento em “Um copo de cólera”. Abro e começo a ler. Quando me dou conta já estou sentada em uma cadeira próxima e devorando pela segunda vez o livro. Na terceira, peguei o livro, procurando um trecho, que por acaso é bem no começo. Acabei lendo todo de novo! O trecho que eu procurava era a parte do tomate, que eu acho cinematográfica, além de exemplificar muito bem a relação do casal. É desnecessário dizer que eu adorei o livro. Deixo aqui um naco dele:

“A chegada
E quando cheguei à tarde na minha casa lá no 27, ela já me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão pra que eu entrasse com o carro, e logo que saí da garagem subimos juntos a escada pro terraço, e assim que entramos nele abri as cortinas do centro e nos sentamos nas cadeiras de vime, ficando com nossos olhos voltados pro alto do lado oposto, lá onde o sol ia se pondo, e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou “que que você tem?”, mas eu, muito disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhidão lá do poente, e só foi mesmo pela insistência da pergunta que respondi “você já jantou?” e como ela dissesse “mais tarde” eu então me levantei e fui sem pressa pra cozinha (ela veio atrás), tirei um tomate da geladeira, fui até a pia e passei uma água nele, depois fui pegar o saleiro do armário me sentando em seguida ali na mesa (ela do outro lado acompanhava cada movimento que eu fazia, embora eu displicente fingisse que não percebia), e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que ia me restando na mão, fazendo um empenho simulado na mordida pra mostrar meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, e sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente eu lhe parecesse, eu só sei que quando acabei de comer o tomate eu a deixei ali na cozinha e fui pegar o rádio que estava na estante lá da sala, e sem voltar pra cozinha a gente se encontrou de novo no corredor, e sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto.
            NASSAR,Raduan.Um copo de cólera.Sâo Paulo:Companhia das Letras,1992.p.9-11.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Odin e Verblendung

Imagem: Lauri Blank http://blankstudio.com/


Odin e Verbelndung

 
-Permite-me ofertar-te ajuda, bela jovem.
-Bela, eu? Como podes falar de minha beleza se nem me conheces?
-Sim, tu és bela. Muito bela!
-E quem és tu?
-Eu sou Odin, aquele a quem chamam O de um olho só. E tu, como te chamas?
-Me chamo Verblendung, a que nada vê e que nada sabe de sua beleza.
-Certamente, pois se diz que a beleza está nos olhos de quem vê. Ainda assim, estou seguro de que a beleza está em ti e não em mim!
-O que te trazes aqui, Odin?
-Julgo que seja o destino!
-Há tempos não chega ninguém de fora. O último chegou aqui bem antes de eu nascer.
-Dize-me, bela Verblendung, que má sorte abateu-se sobre esta aldeia? Estão todos cegos pelo que pude ver!
-Somos todos cegos e isto sempre foi assim.  Jamais eu, ou alguém, vimos coisa alguma! Dize-me Odin, como posso saber se dizes a verdade quando falas de minha beleza?
-Podes saber que falo a verdade, pois falo com o coração!
-Disto eu não duvido, mas como posso saber que enxergas realmente?
-Se não pudesse ver, como saberia dizer que teus cabelos são como ondas douradas a adornar o teu rosto?
-Ondas douradas? O que estás a falar?
-Sim, ondas como as do mar e douradas como o sol!
-Que sandices estás a falar?! Não sei o que é o mar e do sol conheço apenas o calor. Tu queres me enganar! Não podes realmente ver! Se pudesses, saberias dizer o que trago na mão!
-Tu não trazes nada na mão e ela está aberta, com a palma estendida para cima. Vejo, pelo teu espanto, que agora acreditas em mim! Conserva tua mão assim, quero dar-te um presente.
-O que é isso?
-É um adorno feito pelas mãos habilidosas de um estimado amigo. E, agora, eu o submeto ao maior desafio que ele poderia enfrentar, que é tornar-te ainda mais bela.
-Agradeço o presente! Tu poderias prendê-lo em meu cabelo?
-Seria um prazer!
-E então, como ficou?
-Continuas linda!
-Deixa-me vê-lo, Odin, com minhas mãos.... Pareces-te com o que imaginei ao ouvir tua voz! Raramente me engano! E, tu também és belo! O que vieste fazer aqui?
-Não sabia qual o propósito até encontrar-te. Apenas minhas pernas e uma ânsia me moviam. Mas preciso seguir viagem. Ficaria encantado de gozar de tua companhia. O que me dizes?
-Para onde vais?
-Para todos os lugares aonde ainda não fui. Não os vi ainda. Mas, como tu, raramente me engano.
-O que me dizes de ficar aqui?
-Não posso! Minhas pernas e minha alma me dizem que ainda não é hora de parar.
-Pois segue teu caminho, então!
-Depois de ver-te, bela Verblendung, minha alma inquieta ficará dividida se não fores comigo!
-Aquieta tua alma então, e fica. Nunca ouviste que em terra de cego quem tem um olho é rei?
-Sim, já ouvi, mas a sabedoria recolhida do caminho que trilhei me diz que em terra de cego quem tem um olho é louco! Vem comigo, te rogo!
-OK, POR HOJE É SÓ. AMANHÃ REPASSAREMOS ESTA PARTE E FAREMOS AS MARCAÇÕES.
-Bem que a gente poderia mudar o final. Vocês sabiam que, hoje em dia, os finais felizes é que são subversivos?
-Pode até ser, mas não se pode modificar algo que já existe e, principalmente, não se pode modificar o que não é seu!
-CONCORDO! ALÉM DISSO, SUBVERSIVOS OU NÃO, FINAIS FELIZES NÃO CONDIZEM MUITO COM A REALIDADE.
-Como vocês estão amargos hoje! Nossa, nem vi o tempo passar! Preciso correr, tenho prova hoje. Espero os dois lá em casa hoje à noite.
-Boa sorte na prova!
-VAI-TE, BELA VERBLENDUNG, DEIXA QUE A CERVEJA SEJA POR NOSSA CONTA!

Emma Tommas