domingo, 24 de fevereiro de 2013

Carta 63

Imagem: Daniel Valeriani (Morbid) http://www.myspace.com/blackdiamondgate


"(Carta 63) 27 de outubro.
Sinto impulsos de rasgar o peito e esmagar a minha cabeça quando vejo a dificuldade que há em comunicar aos outros as nossas sensações e fazê-los entrar inteiramente nos nossos sentimentos. Ah! eu não posso receber de ninguém o amor, a alegria, o calor, o prazer, que em mim não residem; nem mesmo com um coração transbordando dos mais vivos afetos posso fazer a felicidade daquele a quem o mesmo calor e energia não são inerentes." 
GOETHE, Johan Wolfgang von.O sofrimento do jovem Werther.São Paulo,Hedra,2006.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Um naco de couro ilegítimo

Imagem: Luis Royo http://www.luisroyo.com/ 



Gostei muito do texto do Cesar Mateus. É do tipo que dá vontade de ler mais uma vez, anotar, dividir com as pessoas. Então, divido um pedacinho:
"Logo,logo ela fará o seu trabalho, agirá apenas com o instinto. Pedirá, ameaçará e com certeza gritará, tanto de fúria quanto de prazer. Seus pulmões devem ter o dobro do tamanho normal. Ela é grande, maior que uma mulher deve ser - todas são de alguma maneira: em pés, em libras, em ego. Estranho desfile de criaturas presenciaremos hoje. Todas em busca."
MATEUS,Cesar;ABREU, Maikel de.Couro Ilegítimo e outros contos.POA:Modelo de Nuvem,2012.p.57

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ira do Cordeiro

Imagem: Abril Andrade http://www.abrilandrade.com/



Desta vez, deixo a letra de uma música que acho interessante:
"Zorn des Lammes 
I have seen the wrath of the land,
as I wandered like a wolf among the sheep.
I was a part of the wrath of the lamb,
so I am a part of the wolf.
I am the wolf,  I am the lamb,
so I am Satan and I'm God.
Call me now Judas or call me insane,
I am what I am, I'm just a man.
Call me now Judas or call me insane,
I am what I am, I'm just a man

(Nargaroth - Amarok - Zorn des Lammes Part III)

A tradução é minha, por isso, se alguém tiver uma melhor, aceito sugestões:
Ira do cordeiro 
Eu tenho visto a ira da terra,
enquanto vagava como um lobo entre as ovelhas.
Eu era uma parte da ira do cordeiro,
então eu sou uma parte do lobo.
Eu sou o lobo, eu sou o cordeiro,
Então eu sou Satã e eu sou Deus.
Me chame de Judas ou me chame de louco,
eu sou o que sou, sou apenas um homem.
Me chame de Judas ou me chame de louco,
eu sou o que sou, sou apenas um homem. 

Acho mais honesta essa visão do homem, que contém o bem e o mal, tem espaço suficiente pra abrigar luz e sombra, porque afinal, entre o azul e o amarelo, pode haver cinquenta tons de verde. Por isso, nem o primário azul e o primário amarelo, dão conta de explicar a complexidade do verde. Quem acha que é só azul ou só amarelo está se enganando. Pelo menos é isso que eu acho. Aproveito esta postagem para fazer uma verificação. Se você, caro leitor, existir, por favor deixe um comentário com a sua cor preferida. Será que alguém lê o que escrevo aqui, afinal? Desde já, agradeço!






domingo, 10 de fevereiro de 2013

Era tudo verdade



Imagem: Zdzislaw Beksinski


Era tudo verdade


Sentados lado a lado eles fumavam um cigarro após o outro sem se olhar. Ela sentia a brisa fresca tocar seu rosto enquanto tragava a fumaça devagar. Não precisava olhar para saber que ele estava ali. Sim, ele estava inteiro ali, isso ela podia sentir. E ela teve vontade de olhar dentro dele.  Ele continuou olhando para frente, utilizando sua visão periférica para observá-la, sem encará-la. Ficaram assim, os dois, por algum tempo, até que os olhos dele encontraram os dela. Os olhos dela eram permitidos raramente, e, mesmo assim, nunca por tempo longo demais. Ela sabia dos limites, sabia que podia apenas espiar aquela essência. Ela o abraçou e ele retribuiu o abraço, com o peito aberto, tanto quanto lhe era possível. Permaneceram abraçados assim, sentindo um ao outro e sentindo algo que nem um dos dois saberia explicar exatamente. Ele chupando a espinha dorsal dela, demorando-se em cada vértebra, tentando descobrir onde tudo aquilo começava e terminava, mas não chegava à conclusão alguma e com delicadeza, ele fazia sua mão avançar pela epiderme, derme, gordura, rasgava com cuidado seus músculos e por fim agarrava seus ossos com firmeza, como se dissesse para quem quisesse ouvir, isto tudo é meu! E o esqueleto dela, sempre firme, sólido, voluntarioso, já não tinha vontade própria e ela sentia seus ossos derreterem, incapazes de qualquer resistência, e eles só concordavam com ele, dizendo sim, tudo é seu! Mas não, ela não era dele e ele não era dela. Eram um do outro assim, naquelas frações de segundos em que os neurônios paravam de respirar. E ela, sabendo disso, lambia de leve o coração dele, enquanto espremia entre as mãos a massa cinzenta, sentindo escorrer por entre os dedos todas as sinapses desnecessárias. E ele abocanhava as entranhas dela e deliciava-se com seus órgãos vitais. A boca dele devorava suas costas, sorvia seu sangue, seu suor, seus medos, mas nunca sua saliva. A boca dela era território perigoso e proibido. E ela degustava aquele momento eterno, e sua língua comprazia-se com o sabor agridoce dele e no momento seguinte o abraço se desfez, não se sabe se por iniciativa dele ou dela, ou ainda se por iniciativa dos dois. E nesse momento ela sabia, como soube antes, que um dia ele rasgaria novamente sua carne com as unhas afiadas, e desta vez seria sem cuidado algum, e ela gritaria de dor, e seu estômago voltaria a ter as velhas convulsões de sempre, e sua boca se tornaria ácida e seca, e seus olhos mais uma vez desejariam não enxergar. Ela sentia-se cansada de ser o reflexo das vontades daquele homem, mas não cansada o suficiente para ir embora. Acendeu mais um cigarro, sentindo o gosto da fumaça misturar-se às partículas dele perdidas em suas papilas, e foi então que descobriu a memória da sua língua e a amnésia do seu corpo, incapaz de relembrar qualquer dor. Ficaram assim, sentados lado a lado, e fumavam um cigarro após o outro sem se olhar. Naquela noite quieta, tudo parecia dormir, mas a brisa fresca denunciava que tudo apenas parecia dormir. Era uma quietude atenta, desejosa, desperta, mas latente. Sempre latente.