domingo, 10 de fevereiro de 2013

Era tudo verdade



Imagem: Zdzislaw Beksinski


Era tudo verdade


Sentados lado a lado eles fumavam um cigarro após o outro sem se olhar. Ela sentia a brisa fresca tocar seu rosto enquanto tragava a fumaça devagar. Não precisava olhar para saber que ele estava ali. Sim, ele estava inteiro ali, isso ela podia sentir. E ela teve vontade de olhar dentro dele.  Ele continuou olhando para frente, utilizando sua visão periférica para observá-la, sem encará-la. Ficaram assim, os dois, por algum tempo, até que os olhos dele encontraram os dela. Os olhos dela eram permitidos raramente, e, mesmo assim, nunca por tempo longo demais. Ela sabia dos limites, sabia que podia apenas espiar aquela essência. Ela o abraçou e ele retribuiu o abraço, com o peito aberto, tanto quanto lhe era possível. Permaneceram abraçados assim, sentindo um ao outro e sentindo algo que nem um dos dois saberia explicar exatamente. Ele chupando a espinha dorsal dela, demorando-se em cada vértebra, tentando descobrir onde tudo aquilo começava e terminava, mas não chegava à conclusão alguma e com delicadeza, ele fazia sua mão avançar pela epiderme, derme, gordura, rasgava com cuidado seus músculos e por fim agarrava seus ossos com firmeza, como se dissesse para quem quisesse ouvir, isto tudo é meu! E o esqueleto dela, sempre firme, sólido, voluntarioso, já não tinha vontade própria e ela sentia seus ossos derreterem, incapazes de qualquer resistência, e eles só concordavam com ele, dizendo sim, tudo é seu! Mas não, ela não era dele e ele não era dela. Eram um do outro assim, naquelas frações de segundos em que os neurônios paravam de respirar. E ela, sabendo disso, lambia de leve o coração dele, enquanto espremia entre as mãos a massa cinzenta, sentindo escorrer por entre os dedos todas as sinapses desnecessárias. E ele abocanhava as entranhas dela e deliciava-se com seus órgãos vitais. A boca dele devorava suas costas, sorvia seu sangue, seu suor, seus medos, mas nunca sua saliva. A boca dela era território perigoso e proibido. E ela degustava aquele momento eterno, e sua língua comprazia-se com o sabor agridoce dele e no momento seguinte o abraço se desfez, não se sabe se por iniciativa dele ou dela, ou ainda se por iniciativa dos dois. E nesse momento ela sabia, como soube antes, que um dia ele rasgaria novamente sua carne com as unhas afiadas, e desta vez seria sem cuidado algum, e ela gritaria de dor, e seu estômago voltaria a ter as velhas convulsões de sempre, e sua boca se tornaria ácida e seca, e seus olhos mais uma vez desejariam não enxergar. Ela sentia-se cansada de ser o reflexo das vontades daquele homem, mas não cansada o suficiente para ir embora. Acendeu mais um cigarro, sentindo o gosto da fumaça misturar-se às partículas dele perdidas em suas papilas, e foi então que descobriu a memória da sua língua e a amnésia do seu corpo, incapaz de relembrar qualquer dor. Ficaram assim, sentados lado a lado, e fumavam um cigarro após o outro sem se olhar. Naquela noite quieta, tudo parecia dormir, mas a brisa fresca denunciava que tudo apenas parecia dormir. Era uma quietude atenta, desejosa, desperta, mas latente. Sempre latente.

Um comentário:

  1. Quando leio algo assim, chego a conclusão de que algumas pessoas são iluminadas com algum tipo de poder, sensibilidade ou seja lá o nome que tiver, mas sempre estarão num patamar acima da normalidade morna e medíocre da grande maioria. Parabéns! Lindo, doído, prá lá de sensível. DD

    ResponderExcluir

Seja bem-vindo à bolha! Deixe seu comentário aqui: