domingo, 22 de setembro de 2013

Clube da Luta

Faltam algumas páginas para eu terminar de ler o Clube da Luta, mas acho que já posso afirmar que esta foi a melhor adaptação de livro para o cinema que já vi até hoje. Adoro o filme e já estava com vontade de ler o livro há tempos, mas estava esgotado e não encontrava em lugar nenhum. Finalmente foi reeditado e fui presenteada por uma amiga querida com o exemplar que agora devoro. O livro é muito bom, assim como o filme.  Deixo algumas pérolas de Tyler Durden, Marla Singer & Cia:

"Depois de eu ir dormir na noite passada, Tyler me disse que chegou de seu turno de garçom, e Marla ligou de novo do Regent Hotel. Era o fim, ela falou. Havia um túnel e uma luz que a levava pelo túnel. A experiência de morrer era tão legal que Marla queria que eu a escutasse enquanto ela descrevia sua experiência de sair do próprio corpo e flutuar. 
Marla não sabia se seu espírito conseguiria usar o telefone, mas queria pelo menos que alguém ouvisse seu último suspiro. (...)
Ela o empurra para o corredor e diz que sente muito, mas ele não deveria ter chamado a polícia e que provavelmente os policiais estão lá embaixo naquele momento.
Já no corredor, Marla tranca a porta do 8G e empurra Tyler em direção às escadas e, quando estão nelas, os dois se encostam na parede quando policiais e paramédicos passam carregando oxigênio e perguntando onde é o 8G.
Marla diz que é a porta no final do corredor.
Marla grita para os policiais que a garota que vive no 8G costumava ser linda e encantadora, mas que agora é uma vagabunda monstruosa. Que a garota é um lixo humano infectado, confusa, com medo de se comprometer com a coisa errada e assim não se compromete com nada." (p.71)


"Digo a Tyler que Marla não precisa de um amante, e sim de um assistente social." (p.74)

"Estou começando a pensar se Marla e Tyler são a mesma pessoa. A não ser pelas fodas, todas as noites no quarto de Marla
Transando.
Transando.
Transando.
Tyler e Marla nunca estão no mesmo lugar. Eu nunca os vi juntos.
Por outro lado você nunca me vê ao lado de Zsa Zsa Gabor e isso não quer dizer que somos a mesma pessoa. O Tyler simplesmente não sai do quarto quando Marla está por aqui.
Para que eu possa lavar minha calça, Tyler precisa me ensinar a fazer sabão.
Ele está lá em cima e a cozinha está com cheiro de cravo e pelo queimado. Marla está sentada à mesa da cozinha queimando a parte interna do braço com um cigarro de cravo e chamando a si mesma de limpador de bunda.
-Aceito minha própria corrupção doentia e pustulenta - Marla diz para a brasa avermelhada da ponta de seu cigarro e depois o enfia na parte interna do braço branquelo. -Queime, bruxa, queime.
Tyler está lá em cima no meu quarto olhando para os dentes no espelho e diz que me arranjou um trabalho de garçom, apenas meio período.
-É no hotel Pressman, se você puder trabalhar à noite - ele diz. -Esse trabalho despertará o seu ódio de classes. (p.77)

"Meu pai sempre dizia:
-Case antes do sexo ficar tedioso, senão você nunca se casará.
Minha mãe dizia:
-Nunca compre nada com zíper de náilon.
Eles nunca disseram nada que valesse a pena ser bordado em uma almofada." (p.78)

"Enquanto Marla ainda está sentada à mesa da cozinha eu pego o cigarro de cravo do meio de seus dedos, devagar e com calma. Com um pano de prato eu limpo as cinzas das queimaduras do braço de Marla que começaram a rachar a pele e a sangrar. Depois coloco cada um de seus pés em sapatos de salto alto.
Marla olha para mim enquanto faço aquele teatro de Príncipe Encantado com seus sapatos e diz:
-Eu cheguei e fui entrando, achei que não tinha ninguém em casa. Sua porta da frente não tranca.
Não respondo nada.
-Sabe, a camisinha é o sapatinho de cristal da nossa geração. Você a coloca quando encontra um estranho. Você dança a noite toda e depois joga fora. A camisinha, quero dizer, não o estranho." (p.79)

"O que você precisa saber é que Marla ainda está viva. A filosofia de vida de Marla, ela me disse, é que ela pode morrer a qualquer momento. A tragédia na vida dela é que ela não morre." (p.134)

"O coração de Marla tem a aparência da minha cara. O lixo do mundo. Humano limpador de bunda depois de consumido e que ninguém jamais teria o trabalho de reciclar." (p.135)

"O trabalho era chato e o pagamento ridículo, por isso o presidente do sindicato unido dos projecionistas unidos e união dos cinemas unidos disse que estava fazendo um favor a Tyler ao dispensá-lo diplomaticamente." (p.140)

"A primeira coisa que o gerente do hotel me disse é que eu tinha três minutos.
Nos primeiros trinta segundos, contei como tinha mijado nas sopas, peidado nos crème brûlées, espirrado nas endívias e que agora queria que o hotel me enviasse um cheque todas as semanas com o equivalente ao que eu ganhava mais as gorjetas. Em troca eu não viria mais trabalhar nem iria aos jornais ou ao departamento de saúde pública para uma confissão confusa e chorosa.
As manchetes:
Garçom Perturbado Admite Contaminar a Comida.
Claro, eu digo, sei que posso ir para a cadeia. Podem me enforcar, arrancar minhas bolas, me arrastar pelas ruas, me esfolar e me queimar com soda cáustica, mas o hotel Pressman sempre será lembrado como o hotel onde as pessoas mais ricas do mundo tomaram mijo." (p.141)

"Em uma linha do tempo longa o suficiente, a taxa de sobrevivência de todo mundo cai para zero." (p. 219)

PALAHNIUK, Chuck. Clube da Luta. São Paulo: Leya,2012.

domingo, 15 de setembro de 2013

Filosofia da madrugada

Aram Vardazaryam http://vardazaryan.net/





Quando a razão se torna deus, começamos a escavar um buraco em busca da raiz de todas as coisas. Escavamos com afinco, pois temos a certeza de que a qualquer momento encontraremos o que procuramos. Assim, vamos nos afastando da superfície, mas não percebemos, pois nossa atenção está voltada para baixo. Passa-se algum tempo e continuamos nossa busca, mas sem sucesso. Sentimo-nos fatigados e por um instante paramos para descansar. Olhamos em volta e temos uma sensação claustrofóbica, estamos sozinhos e no escuro. Acima de nós há uma saída, porém está fora do nosso alcance. Nesse momento nossa mente não se empenha em descobrir uma maneira de sair dali, simplesmente porque se recusa a acreditar que todo seu esforço foi em vão. Então, continuamos a cavar, não com a mesma certeza de antes, mas com uma urgência desesperada de quem se sente só e sem saída. Avançamos mais alguns metros em direção ao nada e começamos a nos sentir realmente cansados. Sem forças para prosseguir, permanecemos imóveis no interior do buraco. A luz em cima de nós agora está muito distante e estamos muito fracos para chamar por socorro. Permanecemos ali por um longo tempo. É um período tenebroso em que vivenciamos uma espécie de inferno pessoal. Estamos sozinhos e nossa alma sofre uma dor constante e insuportável. Aos poucos, vamos nos acostumando a ela e uma espécie de indiferença toma conta de nós. Não escavamos mais, pois já não acreditamos mais que haja alguma coisa para buscar, e não tentamos sair dali, pois estamos muito fracos para percorrer o caminho de volta. Nossa percepção fica tão negra quanto a escuridão que nos rodeia. Tudo parece sem vida e sem importância. Quem sabe seja o eco vindo do interior de nós mesmos. Poderíamos chamar a isso de morte? Talvez sim. E assim se sucedem os dias e permanecemos mortos de certa forma. Quando achamos que o vazio que nos rodeia é interminável, e que vamos simplesmente rastejar sobre a face da terra ou permanecer imóveis no interior do buraco, avistamos algo que nos chama a atenção. É uma corda suspensa, vinda lá de cima. Há quanto tempo esta corda estava ali? Nós realmente não saberíamos dizer. Começamos a subir por ela em direção a saída, mas esta escalada é muito difícil. Estamos fracos, mal conseguimos suportar o peso de nossos próprios corpos. À medida que vamos avançando vemos a luz cada vez mais intensa. Ela castiga nossos olhos acostumados à penumbra. À meio caminho nos ocorre um pensamento. Qual realidade é melhor: a conhecida e a qual nos habituamos, ou a desconhecida, que atiça a curiosidade, mas que nos causa certo desconforto? Depende da percepção de cada um. Seja como for, continuamos a subida e quando finalmente alcançamos a saída, sentimo-nos um pouco zonzos. O mundo é o mesmo desde que o deixamos, mas estranhamente ele parece muito diferente agora, ou será que fomos nós que mudamos?  Há muitas coisas novas e nos deparamos com várias situações inéditas. Sentimo-nos como crianças aprendendo a caminhar e aprendendo tantas outras coisas. Embora erremos às vezes ou caiamos no meio do caminho, isto não nos impede de seguir adiante. Finalmente compreendemos que o aprendizado pode ser divertido mesmo que ele nos faça chorar de vez em quando. Compreendemos também que sempre há uma escolha, mesmo quando ela parece inexistente e o que quer que façamos irá repercutir em nós mesmos e nos outros. Entendemos que tudo tem começo, meio e fim, e que devemos celebrar cada etapa do que quer que seja com intensidade. Passamos a perceber que a vida é um espiral infinito, feito de breves momentos elípticos, onde absolutamente tudo é uma questão de percepção.