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| Jonathan Jacobsen http://www.flickr.com/photos/loganart/ |
Não me entenda
mal, eu acho essa história de amizade colorida bem interessante. Aliás, acho
até que foi uma das melhores coisas que já inventaram. Algum afeto, sexo e
nenhum compromisso. Perfeito!, principalmente para um porco-espinho como eu. Só
que amizade colorida não é possível com todo tipo de pessoa. É possível assim,
com pessoas que a gente não tá muito aí. Como assim? Se por acaso tu encontrares
com um amigo colorido e ele estiver com outra, sendo ela colorida ou não, nada
muda pra ti, entende? Essa situação não te afeta de modo algum, a vida continua
do mesmo jeito, inalterada. O mundo de dentro também segue, ileso. Só que
contigo é diferente. Acho que meu afeto por ti extrapolou as medidas. Dizem que
afeto não se mede, mas eu discordo. A ciência por mais evoluída que seja ainda
não inventou um instrumento para medir o afeto, mas eu acabo de criar uma
fórmula para quantificar a variável em questão. Não é uma fórmula como a de Bhaskara
e tal, na verdade não é bem uma fórmula. É mais um raciocínio lógico.
Raciocínio lógico é quase científico, não é? Lá vai: o afeto é diretamente
proporcional ao quanto tu é afetado. Nestas circunstâncias, se não te afeta
encontrar um amigo colorido com outra, significa pouco afeto pelo referido
amigo. Se te afeta muito encontrar um amigo colorido com outra, a ponto de
sentir convulsões no estômago, o peito esmagado, dificuldade para respirar e
vontade de chorar, gritar, correr, sumir, socar alguma coisa/alguém &
afins, isto denota muito afeto pelo amigo, logo a amizade colorida está
condenada.
Sim, eu sei
que homens e mulheres são diferentes. Os homens em geral são um pouco mais
discretos, jamais do alto de sua macheza se permitiriam demonstrar tal
destempero. Mas sentimento é sentimento, independe de gênero, eu acho.
Eu sei que tu
me entendes, bem no fundo eu sei que sim. E eu também te entendo, bem no fundo
eu sei que sim, embora às vezes pense que é uma crueldade tu ficar aí sentado
sobre as tuas verdades, sem ceder um milímetro. Mas aí me vejo sentada sobre as
minhas próprias verdades, incapaz de ceder também. Então considero que vai aí
nessa tua atitude algo como vai na minha, uma incapacidade de ir contra aquilo
que se sente e aquilo que se é. E fico pensando em como somos bem coerentes, eu
e tu, no que se refere a mim e a ti. Então ficamos assim, coerentes, sentados
sobre as nossas próprias verdades, incapazes de avançar um palmo na direção um
do outro.
É, pode até
ser, mas me ocorre outra coisa, aqui sentada. Fico pensando que se, ao me
imaginar com outro cara, tu não tenha tido nenhum indício de convulsões no
estômago, peito esmagado, vontade de gritar ou alguma dessas coisas todas, isto
denota pouco afeto por mim. Logo, a distância entre nós aumenta
consideravelmente, de alguns palmos para um abismo intransponível. Tudo bem,
acho que exagerei, nem é tão instransponível assim. Só que tem muito afeto do
lado de cá, e pouco afeto desse lado aí. Então transpor a distância, seja ela
grande ou pequena, não vale à pena. Adoraria ficar, como tu bem sabes, mas já é
tarde e eu preciso tomar o meu rumo. A gente se vê por aí.
