segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Uma vaca é simplesmente uma vaca



Fotografia: Emma Tommas
Nunca vi uma vaca que se questionasse a respeito do porquê dela ser uma vaca e pastar e ruminar o dia inteiro, e nem que tivesse inventado uma maneira criativa de fazê-lo. Mas, também, nunca vi uma vaca assassinando outra vaca, nem vacas malhadas se unindo para acabar com as demais, por causa da posse de um território verde, nem vacas consumindo ferozmente o planeta onde vivem. Enfim, uma vaca é simplesmente uma vaca. Jamais irá compor uma sinfonia, pintar um quadro ou escrever um livro. Ela simplesmente pasta o dia todo sem se preocupar se as dimensões da sua cintura estão dentro dos padrões estabelecidos para as vacas, simplesmente porque eles não existem. Se existe algum padrão, é aquele estabelecido pelo homem, que determina se ela está boa ou não para o abate. Ela entra em período fértil, copula e reproduz. Não vai se confessar após a cópula e não fica se perguntando se o touro achou que ela é uma vaca fácil porque deu pra ele no primeiro encontro. E o touro não irá se vangloriar para os amigos contando que em apenas uma semana ele cobriu um rebanho inteiro. Alguns humanos poderão usar este exemplo como justificativa para suas puladas de cerca, alegando que a poligamia dos machos é uma lei da natureza, mas não quero entrar no mérito da questão.
            É interessante notar que, apesar de usar papel higiênico perfumado e com flores em alto relevo, as funções excretoras dos humanos não diferenciam em nada das dos demais animais e, apesar de ter utensílios para levar o alimento à boca e ter criado um compêndio de boas maneiras à mesa, o ser humano precisa se alimentar como qualquer outro bicho. É bem verdade que não é mais necessário que se saia à caça de alimentos, pois eles estão dispostos em prateleiras iluminadas e climatizadas, bem ao alcance das mãos. Compramos animais que já vêm mortos, esfolados e desossados, prontos para serem cozidos. Mesmo com o surgimento do casamento, da família nuclear e de várias regras para o flerte, que variam de acordo com a cultura de cada sociedade, é interessante notar que o acasalamento humano se dá da mesma forma no mundo inteiro e é bem semelhante ao de muitas espécies. Ou seja, por baixo do fino verniz civilizatório que recobre cada um de nós, somos essencialmente animais.
            Essencialmente animais não quer dizer que sejamos puramente animais. Apesar de fazermos parte do reino animal, temos uma coisinha chamada razão, que nos diferencia dos demais. A razão capacitou o homem para sobreviver na natureza dominando-a e sobrepondo-se a esta. Desta forma, ele deixou de integrar as leis naturais como antes, pois se colocou no topo da cadeia alimentar e não depende mais tão diretamente das condições naturais para sobreviver. Dominou o fogo, inventou a calefação e roupas especiais para frios intensos e, do mesmo modo, refrigeração para temperaturas elevadas. Com a agricultura ele já não dependia exclusivamente da caça. Inventou instrumentos que o possibilitaram alcançar seu sustento e de sua família e, com o aprimoramento de ferramentas, alcançou safras gigantescas. Aprendeu a armazenar água e inventou sistemas de irrigação que, junto com a agricultura, possibilitaram-no fixar-se em um mesmo lugar. Inventou a lâmpada, o telefone e o tanque de guerra. E inventou também o CD, o DVD e os mísseis de precisão.
            Quando nascemos, recebemos uma carga genética que irá nortear boa parte da nossa vida. O ciclo biológico de desenvolvimento pelo qual todo indivíduo passa ao longo da sua vida é como um script pré-programado, que vem na forma de um coquetel de substâncias que integram o corpo humano. Através da Antropologia, conseguimos entender porque a animalidade em nós ainda é tão forte. Cronologicamente, o espaço que nos separa do reino animal é extremamente curto. O ser humano é uma mistura curiosa de genética e cultura. Esta última seria a responsável por ter refinado nossos instintos animais:

           
“O ser humano se diferencia das outras espécies animais, pois, enquanto estes inscrevem-se apenas na natureza, ele se inscreve na natureza e na cultura.
  A força que move os animais e os impele em busca de satisfação é o instinto, caracterizado por sua fixidez em termos de determinação e de objeto.
  Freud postula a existência de forças que impelem o ser humano. Mas elas também tiveram um desenvolvimento com relação aos instintos. Essas forças têm o nome de pulsões.
  Pulsão (Trieb, em alemão) é diferente de instinto (Instinkt). Existem muitas traduções que confundem estes dois conceitos, escamoteando a distinção fundamental feita por Freud.”[1]

            É, Freud estava certo ao diferenciar o instinto nos humanos e nos demais animais, porque nos humanos eles passam pelo crivo da razão. Isso não quer dizer que a pulsão é menos intensa que o instinto. Temos impulsos para fazer muitas coisas que acabamos não fazendo, pois foram desaprovadas pela razão. Criamos então as neuroses, das quais nenhum outro animal sofre. Com a razão, criamos também uma infinidade de necessidades impulsionadas pelo consumo e passamos a viver com o objetivo de suprir tais necessidades. O problema é que a cada dia vão sendo inventadas mais e mais necessidades, e acabamos escravos na tentativa frustrada de suprir todas elas. O que muitas vezes não nos damos conta, é que a maioria delas remetem às mais primordiais necessidades animais, garantidas pelos instintos. É difícil encontrar uma propaganda que não aluda fome ou sexo. Apesar de o homem ter atravessado uma revolução tecnológica incrível, os objetivos continuam sendo os mesmos dos tempos das cavernas, ou seja, a sobrevivência individual e a sobrevivência da espécie. Tendo em vista isso e também os efeitos nefastos que a tecnologia trouxe, cabe a pergunta: para que serve mesmo o progresso?
Há muito se discute se o homem é bom ou mau por natureza. No momento, consigo pensar em dois caminhos possíveis à humanidade. No primeiro deles, não há mudanças significativas, a não ser as tecnológicas, o que vai resultar na exaustão dos recursos naturais do planeta e acarretará a extinção de qualquer forma de vida conhecida até agora. No segundo, e menos provável, a humanidade usa a sua razão de maneira benéfica para si e para o todo, vivendo todos felizes para sempre. Ops, esqueci que, apesar de inteligente, o homem também morre!

Emma Tommas

[1] PIMENTA, Arlindo C. Sonhar, brincar, criar, interpretar. São Paulo:Ática,1986. (p.22)

Um comentário:

  1. July, muio legal teu blog.... Este texto eu gosto muito e não sei o porque, mas todas as vezes que o li lembro da minha teoria de que estamos evoluindo tanto que voltaremos ao período das cavernas, lembro também de algo que uma amiga me disse: "todos deveríamos ser descendentes de repolho, para não termos histórico familiar, hehe. Beijão e parabéns pelo blog!

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