domingo, 23 de junho de 2013

Era meu esse rosto

CAPA: Leonardo Iaccarino FOTOGRAFIA: Luiz Eduardo Achutti
"Era meu esse rosto" foi o primeiro e único (até o presente momento) livro que li da Marcia Tiburi. Levei o livro inteiro pra decidir se tinha gostado ou não dele e isso foi inédito. Já faz, sei lá, uns três meses (talvez mais) que acabei o livro, e a sensação de "pós-leitura", vamos dizer assim, é de que no geral eu gostei bastante dele. Ele tem passagens MUITO (assim mesmo, com letras maiúsculas!) boas!!! (assim mesmo, com três exclamações no final). Mas tem horas que ele vai ficando meio vago, sei lá, parece que a coisa fica tão metafórica que a gente chega a se perder, e acaba se perguntando "do que afinal essa criatura tá falando?". Me deu a impressão de que às vezes o texto tá meio cifrado, como se fosse secreto, e a solução tá ali, só que tá fora de ordem ou tá camuflada. Talvez numa segunda (terceira?) leitura mais atenta, as coisas clareiem um pouco. Por ora, o que posso dizer é que mais de uma vez, durante a leitura do livro, fiquei em dúvida: ou a autora é hermética pra caramba ou eu sou uma anta. É claro que eu preferi acreditar na primeira opção! Apesar da sensação de ficar boiando de vez em quando, como eu disse, o livro tem várias pérolas! A começar pela capa, com a fotografia de Luiz Eduardo Achutti, que eu achei linda, linda, linda! E falando em pérolas, deixo  aqui uma delas:

"Vai nascer?
Dona Onesta a responder.
o que entrou deve sair.
Um copo de água à cabeceira. Dentro a vela a boiar, minha avó forçando os ossos entre o destino e seu arrependimento, dona Onesta ciciando como um passarinho, fechando a janela para evitar o sereno sobre aquele que vai chegar, a dor desacomodando a dor, a carne como uma expressão do espírito, firma as mãos sobre o ventre forte e duro, olha para a minha avó a exigir força, surge a cabecinha preta no oco dentre as pernas, avoluma-se, irrompe o frágil animal cheio de força, dona Onesta segura os joelhos pra fora, emerge o gemido e a carne acabando com o ar, o cansaço remove-se com um suspiro, longe o uivo de um cão, o ser semelhante a um rato jorra por inteiro vindo parar na mão da dona Onesta que, limpando o pequeno nariz do muco amniótico que o protege tornando-se desnecessário em segundos, abre a boca como quem investiga o funcionamento de um objeto pelo orifício, minha avó a fingir que já não dói, com a cabeça para trás  alivia pelo menos os ombros do que acaba de sofrer, esforça-se a fechar os lábios, acolhe o próprio corpo em si sem mover-se, segura o rombo do acontecido na força das narinas, o animal humano em seu primeiro uivo não é mais que um chumaço de cabelos pretos que precisa da violência de um parto para acordar na vida, dona Onesta a limpar com um pano úmido o líquido grosso dos ouvidos  no mínimo corpo que veio a ser, a cortar o fio que o liga ao corpo de sua mãe, a limpar o sangue que empapa o cabelo, a pele enrugada no roxo das petúnias, as mãos crispadas do pequeno ser que vem ao mundo abrindo-se a pedir socorro, a pedir amparo, a pedir perdão, a pedir para morrer. (...) Somente então se percebe que o que chamamos ser é o que não cessa de se repetir, que minutos, horas e dias são correspondências, fórmulas de sonhos, enviesamentos do destino, confirmação contra negação, que a dor leva à dor dela provinda, , o espasmo, a contração, os ossos se dispersando não são mais do que a vida dando-se à própria vida em augúrio, é assim que seguem destituídas de sua miséria as respostas feitas da procissão dos medos ocultos de si mesmos, é assim e não por outro motivo que minha avó ainda jovem repete-se em gemidos, que sua bacia continua a revirar, que sobrevém a náusea, que ela evitará gritos que por dentro não lhe dão trégua, que a respiração acelerar-se-á mais uma vez, como se a morte viesse arrancar os gomos pulmonares, as narinas virassem pálpebras, é assim que o destino de dentro vem morder o de fora, o impensado engole o pensado, o antes inverte o depois, o ar vira ameaça de sufocamento, a lágrima impedida pelo susto mostra que o bicho é outro, que se pode nascer duas vezes vindo, desta vez, pelos pés, que a cabeça desta vez é nua, não há fios pretos, que o corpo não é teso, não há tensão, que a expulsão não chega a ser nascimento, que nem tudo o que nasce pode chorar, que a gosma quente em seu molho tênue não se expressa dando sentido às coisas. Dona Onesta a cortar o fio pela segunda vez baixa os olhos, percebe o silêncio convertendo-se em alguma qualidade do nada de que todos são filhos, sem gritos ou lágrimas o sangue verte para o fim acalentado pelo som dos sinos das seis horas na igreja distante.
Essa veio morta."
TIBURI, Marcia.Era meu esse rosto.Rio de Janeiro:Record,2012. p. 106-109

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