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| Edvard Munch - Madonna |
Ele tinha a
fala mansa, grave, pausada, com um ritmo próprio, como que sempre a falar sem a
pressa de concluir o raciocínio. Mas sim, ele sempre concluía o raciocínio. Podia
no meio de tudo isso, abrir um parêntese infinito, voar longe, muito longe
mesmo, e depois de muito tempo retornar ao exato momento onde o parêntese foi
aberto e continuar o assunto sem perder o fio da meada. No início ela não
entendia muito bem aquele ritmo, talvez ela não estivesse em sintonia com
aquela falta de pressa, então não era incomum ela atravessar a fala dele, com
alguma pergunta impaciente, ao que ele respondia com uma breve pausa e um gesto
da cabeça e da mão, que sinalizavam para que ela esperasse, como se dissesse
‘tenha calma, eu vou chegar lá.’ Então ele continuava falando e depois de algum
(podia ser muito) tempo, ele respondia a
pergunta dela. Passavam horas conversando, masturbação mental, sexo verbal,
prosa imbuída de prazer. Ela adorava conversar com pessoas que realmente sabiam
ouvir, o que era raro de encontrar. E ele, definitivamente, era uma dessas
pessoas. Sempre ouvia atento ao que ela tinha a dizer, ponderava, concordava ou
discordava. Então era a vez dela de tomar emprestados os olhos dele e absorver
a realidade pela sua percepção. Analisava e então contra-argumentara,
concordando ou discordando. Às vezes discordava propositalmente dele, só para vê-lo
ir mais longe. Ás vezes ela precisava pensar no que ele lhe dissera por dias a
fio, a fim de tentar digerir tudo aquilo. Nessas ocasiões ela constatava que
não era possível beber de um só gole, era necessário saborear com vagar. E
então retomavam o assunto e a conversa fluía sempre. E iam longe os dois, mas
nunca chegavam a lugar algum. Talvez a biblioteca de Alexandria separasse estes
corpos também. O prazer, para ela e para ele, estava na viagem, no caminho a
percorrer, e não em qualquer destino. Não queriam chegar ao final. Mas hoje era
diferente. Ela olhava para ele sem ouvir o que falava, pois estava imersa em
seu turbilhão interno. Submergindo de seus pensamentos, o olhar fixo nele, ela
ouvia algo sobre os povos primitivos do Uzbequistão. Em que maldito canto do
planeta estava plantado o Uzbequistão, afinal? Em outro momento ela teria
ouvido encantada toda e qualquer teoria maluca a respeito dos povos primitivos
da droga do Uzbequistão, mas não hoje. Hoje uma água diferente se agitava nela, mas ele insistia em ficar na
superfície, e aquelas palavras todas brotando da boca dele, funcionavam como
uma bóia poderosa a qual ele se agarrava com força. Talvez a água dela fosse
turva demais. Talvez não fosse nada disso. Ele sentia medo daquele mergulho? Ou
só não queria mergulhar? Ela não sabia a resposta e já sentindo a pele murchar
pelo tempo em que aguardava por ele dentro da água, o Uzbequistão funcionava
como um ‘Será que chove?’, algo como um comentário trivial para amenizar a
atmosfera, preencher o silêncio indesejado, evitar o mergulho. Com a pele
enrugada até os ossos por aquela eternidade interminável, ela decidiu sair da
água e saindo da água era inevitável entrar na razão, e entrando na razão
decidiu ir embora. Mais uma vez.
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Talvez a água dela não seja turva demais. Em determinados momentos, como acontece com todo o espírito inquieto, alguma coisa se agita no interior de sua alma e, aí sim, tudo se torna mais denso e, nem sempre, os companheiros usuais de viagem "bancam" um mergulho de tais proporções. É aí que reside a verdadeira solidão do ser: "...ir embora. Mais uma vez." Bj grande e mais uma vez parabéns! D.D.
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