domingo, 16 de junho de 2013

Uzbequistão

Edvard Munch - Madonna


Ele tinha a fala mansa, grave, pausada, com um ritmo próprio, como que sempre a falar sem a pressa de concluir o raciocínio. Mas sim, ele sempre concluía o raciocínio. Podia no meio de tudo isso, abrir um parêntese infinito, voar longe, muito longe mesmo, e depois de muito tempo retornar ao exato momento onde o parêntese foi aberto e continuar o assunto sem perder o fio da meada. No início ela não entendia muito bem aquele ritmo, talvez ela não estivesse em sintonia com aquela falta de pressa, então não era incomum ela atravessar a fala dele, com alguma pergunta impaciente, ao que ele respondia com uma breve pausa e um gesto da cabeça e da mão, que sinalizavam para que ela esperasse, como se dissesse ‘tenha calma, eu vou chegar lá.’ Então ele continuava falando e depois de algum (podia ser muito) tempo,  ele respondia a pergunta dela. Passavam horas conversando, masturbação mental, sexo verbal, prosa imbuída de prazer. Ela adorava conversar com pessoas que realmente sabiam ouvir, o que era raro de encontrar. E ele, definitivamente, era uma dessas pessoas. Sempre ouvia atento ao que ela tinha a dizer, ponderava, concordava ou discordava. Então era a vez dela de tomar emprestados os olhos dele e absorver a realidade pela sua percepção. Analisava e então contra-argumentara, concordando ou discordando. Às vezes discordava propositalmente dele, só para vê-lo ir mais longe. Ás vezes ela precisava pensar no que ele lhe dissera por dias a fio, a fim de tentar digerir tudo aquilo. Nessas ocasiões ela constatava que não era possível beber de um só gole, era necessário saborear com vagar. E então retomavam o assunto e a conversa fluía sempre. E iam longe os dois, mas nunca chegavam a lugar algum. Talvez a biblioteca de Alexandria separasse estes corpos também. O prazer, para ela e para ele, estava na viagem, no caminho a percorrer, e não em qualquer destino. Não queriam chegar ao final. Mas hoje era diferente. Ela olhava para ele sem ouvir o que falava, pois estava imersa em seu turbilhão interno. Submergindo de seus pensamentos, o olhar fixo nele, ela ouvia algo sobre os povos primitivos do Uzbequistão. Em que maldito canto do planeta estava plantado o Uzbequistão, afinal? Em outro momento ela teria ouvido encantada toda e qualquer teoria maluca a respeito dos povos primitivos da droga do Uzbequistão, mas não hoje. Hoje uma água diferente se agitava nela, mas ele insistia em ficar na superfície, e aquelas palavras todas brotando da boca dele, funcionavam como uma bóia poderosa a qual ele se agarrava com força. Talvez a água dela fosse turva demais. Talvez não fosse nada disso. Ele sentia medo daquele mergulho? Ou só não queria mergulhar? Ela não sabia a resposta e já sentindo a pele murchar pelo tempo em que aguardava por ele dentro da água, o Uzbequistão funcionava como um ‘Será que chove?’, algo como um comentário trivial para amenizar a atmosfera, preencher o silêncio indesejado, evitar o mergulho. Com a pele enrugada até os ossos por aquela eternidade interminável, ela decidiu sair da água e saindo da água era inevitável entrar na razão, e entrando na razão decidiu ir embora. Mais uma vez.

Um comentário:

  1. Talvez a água dela não seja turva demais. Em determinados momentos, como acontece com todo o espírito inquieto, alguma coisa se agita no interior de sua alma e, aí sim, tudo se torna mais denso e, nem sempre, os companheiros usuais de viagem "bancam" um mergulho de tais proporções. É aí que reside a verdadeira solidão do ser: "...ir embora. Mais uma vez." Bj grande e mais uma vez parabéns! D.D.

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