sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Viajante da água

Fotografia: Emma Tommas



           Sou mais fluída do que gostaria, frequentemente sinto o queimar das brasas, quase sempre sinto falta de ar e raramente consigo pôr meus pés no chão. Você é água fervente, alguém me disse, o mapa  sobre a mesa. E como água fervente, queimo, machuco e causo estragos. Fervente, mas ainda água, e seguidamente me ressinto de queimar, de machucar, de causar estragos. Quando da ebulição, o isolamento é necessário. Preciso afastar, é perigoso ter alguém por perto. 
            Volta e meia o fogo me impele a subir a montanha. Durante a escalada, a água desafia a gravidade e facilita alguns trechos, contornando os obstáculos, e dificulta outros, tornando o caminho úmido e escorregadio. Nunca consegui chegar ao topo, por isso não posso descrever como é ver as coisas de lá. Mas penso que meus pulmões, acostumados a uma ventilação escassa, não iriam estranhar o ar rarefeito. Concordo quando dizem que o importante não é o destino, mas a viagem em si, por isso não me importo de nunca ter alcançado o topo, mesmo que caminhe para ele em inúmeras viagens.
            Ás vezes por cansaço, às vezes por ter a sensação de que peguei o caminho errado, às vezes não sei bem o porquê e às vezes não sou eu quem decide. Após trilhar uma parte do percurso e depois de hesitar por algum tempo, relaxo os  músculos e deixo a gravidade fazer sua função. A queda nunca é suave, e eu sei disso. Ora, todo mundo sabe! A intensidade da dor dependerá de vários fatores, mas a gravidade da Terra não muda e dor é sempre dor.
            A dor me faz imóvel contra o solo. O tempo vai trazendo alívio, e aos poucos me recupero. Mas a terra é desconfortável, não consigo pôr meus pés no chão. As brasas incandescem mais uma vez, e lá vou eu em outra jornada. Na bagagem, levo memórias de todo o tipo, de todos os outros caminhos que já trilhei. Qual caminho escolher? Sempre é a água quem decide, já que não consigo respirar.

Um comentário:

  1. Chegar ao topo é para poucos, para os iluminados. E, eu deixo isso para eles já que a paisagem daqui debaixo me interessa. Mas, afinal, quem se importa? E, como já disse alguém, a dor é inevitável, o sofrimento não.

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