domingo, 15 de setembro de 2013

Filosofia da madrugada

Aram Vardazaryam http://vardazaryan.net/





Quando a razão se torna deus, começamos a escavar um buraco em busca da raiz de todas as coisas. Escavamos com afinco, pois temos a certeza de que a qualquer momento encontraremos o que procuramos. Assim, vamos nos afastando da superfície, mas não percebemos, pois nossa atenção está voltada para baixo. Passa-se algum tempo e continuamos nossa busca, mas sem sucesso. Sentimo-nos fatigados e por um instante paramos para descansar. Olhamos em volta e temos uma sensação claustrofóbica, estamos sozinhos e no escuro. Acima de nós há uma saída, porém está fora do nosso alcance. Nesse momento nossa mente não se empenha em descobrir uma maneira de sair dali, simplesmente porque se recusa a acreditar que todo seu esforço foi em vão. Então, continuamos a cavar, não com a mesma certeza de antes, mas com uma urgência desesperada de quem se sente só e sem saída. Avançamos mais alguns metros em direção ao nada e começamos a nos sentir realmente cansados. Sem forças para prosseguir, permanecemos imóveis no interior do buraco. A luz em cima de nós agora está muito distante e estamos muito fracos para chamar por socorro. Permanecemos ali por um longo tempo. É um período tenebroso em que vivenciamos uma espécie de inferno pessoal. Estamos sozinhos e nossa alma sofre uma dor constante e insuportável. Aos poucos, vamos nos acostumando a ela e uma espécie de indiferença toma conta de nós. Não escavamos mais, pois já não acreditamos mais que haja alguma coisa para buscar, e não tentamos sair dali, pois estamos muito fracos para percorrer o caminho de volta. Nossa percepção fica tão negra quanto a escuridão que nos rodeia. Tudo parece sem vida e sem importância. Quem sabe seja o eco vindo do interior de nós mesmos. Poderíamos chamar a isso de morte? Talvez sim. E assim se sucedem os dias e permanecemos mortos de certa forma. Quando achamos que o vazio que nos rodeia é interminável, e que vamos simplesmente rastejar sobre a face da terra ou permanecer imóveis no interior do buraco, avistamos algo que nos chama a atenção. É uma corda suspensa, vinda lá de cima. Há quanto tempo esta corda estava ali? Nós realmente não saberíamos dizer. Começamos a subir por ela em direção a saída, mas esta escalada é muito difícil. Estamos fracos, mal conseguimos suportar o peso de nossos próprios corpos. À medida que vamos avançando vemos a luz cada vez mais intensa. Ela castiga nossos olhos acostumados à penumbra. À meio caminho nos ocorre um pensamento. Qual realidade é melhor: a conhecida e a qual nos habituamos, ou a desconhecida, que atiça a curiosidade, mas que nos causa certo desconforto? Depende da percepção de cada um. Seja como for, continuamos a subida e quando finalmente alcançamos a saída, sentimo-nos um pouco zonzos. O mundo é o mesmo desde que o deixamos, mas estranhamente ele parece muito diferente agora, ou será que fomos nós que mudamos?  Há muitas coisas novas e nos deparamos com várias situações inéditas. Sentimo-nos como crianças aprendendo a caminhar e aprendendo tantas outras coisas. Embora erremos às vezes ou caiamos no meio do caminho, isto não nos impede de seguir adiante. Finalmente compreendemos que o aprendizado pode ser divertido mesmo que ele nos faça chorar de vez em quando. Compreendemos também que sempre há uma escolha, mesmo quando ela parece inexistente e o que quer que façamos irá repercutir em nós mesmos e nos outros. Entendemos que tudo tem começo, meio e fim, e que devemos celebrar cada etapa do que quer que seja com intensidade. Passamos a perceber que a vida é um espiral infinito, feito de breves momentos elípticos, onde absolutamente tudo é uma questão de percepção.

Um comentário:

  1. Preciso te dizer que uma das coisas mais fantásticas da vida é quando lemos ou ouvimos algo que parece ter sido escrito, composto prá gente, porque não importa qual foi a intenção do autor, naquele momento o texto foi para o leitor, a música foi para o ouvinte.E, esse teu texto caiu como luva, vestiu minha alma num determinado momento. E, embora tudo doesse ainda, as tuas palavras vestiram essa dor de beleza e tudo ficou mais leve. Não pare de escrever nunca, o mundo precisa da tua sensibilidade.

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