Esta semana decidi abandonar o Cemitério de Praga, do Umberto Eco. Li pouco mais de cem páginas e a coisa tava andando devagar, quase parando. Não sei exatamente por quê, o fato é que a leitura tava difícil. Eu fui insistindo, mas agora desisti. Achei que eu ia gostar, pois gostei do "O Nome da Rosa", mas este é bem diferente. Talvez eu retome mais adiante. Mesmo tendo lido poucas páginas, achei algumas coisas interessantes, que quero dividir.
Os judeus sob a ótica do avô do personagem:
"Meu avô me descrevia aqueles olhos que nos espiam, tão falsos que nos fazem empalidecer, aqueles sorrisos víscidos, aqueles lábios de hiena arreganhados sobre os dentes, aqueles olhares pesados, infectos, embrutecidos, aquelas dobras entre nariz e lábios sempre inquietas, escavadas pelo ódio, aquele nariz que parece o grande bico de uma ave austral... E o olho, ah, o olho... Gira febril na pupila da cor de pão tostado e revela enfermidades do fígado, corrompido pelas secreções produzidas por um ódio de 18 séculos, aperta-se em mil pequenas rugas que se acentuam com a idade, e já aos 20 anos o judeu parece engelhado como um velho. Quando sorri, suas pálpebras inchadas se cerram a ponto de deixarem apenas uma linha imperceptível, sinal de astúcia, dizem alguns, de luxúria, esclarecia vovô... E quando eu crescera o suficiente para entender, ele me recordava que o judeu, além de vaidoso como um espanhol, ignorante como um croata, cúpido como um levantino, ingrato como um maltês, insolente como um cigano, sujo como um inglês, untuoso como um calmuco, autoritário como um prussiano e maldizente como um astiense, é adúltero por um cio irrefreável - resultado da circuncisão, que os torna mais eréteis, com uma desproporção monstruosa entre o nanismo da corporatura e o tamanhão cavernoso daquela sua excrescência semimutilada." (p.13)
Sobre os padres:
"Os padres... Como os conheci? Na casa do vovô, creio; tenho a obscura lembrança de olhares fugidios, dentaduras estragadas, hálitos pesados, mãos suadas que tentavam me acariciar a nuca. Que nojo. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. O sujeito se faz padre ou frade só para viver no ócio, e o ócio é garantido pelo número deles. Se fossem, digamos, um em mil almas, os padres teriam tanto o que fazer que não poderiam ficar de papo para o ar comendo capões. E entre os padres mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia bispos." (p.19)
Sobre os homens e a religião:
"Os homens nunca fazem o mal tão completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção religiosa." (p.21)
Sobre a pornografia:
O personagem não lembra de muita coisa e ao que tudo indica esse "esquecimento" tem a ver com a negação de sentimentos e acontecimentos que ele não tolera. Isso se torna particularmente interessante após o encontro do personagem com "Froïde":"Só que, certa noite, o mais licencioso dos nossos colegas revelou ter descoberto no sótão, bem escondidos em um arquibanco pelo seu desavergonhadíssimo e dissoluto pai, alguns daqueles volumes que em Turim eram então chamados (em francês) de cochons, e, não ousando exibi-los sobre a mesa untuosa do Gambero d'Oro, decidiu emprestá-los alternadamente a cada um de nós, de modo que, quando chegou a minha vez, não pude recusar.Assim, noite alta, folheei aqueles tomos, que deviam ser preciosos e caros, encadernados como eram em marroquim, nervuras na lombada e rótulo vermelho, corte em ouro, fleurons dourados nas pranchas e - alguns - aux armes. Intitulavam-se Une veillée de jeune fille ou Ah! monseigneurs, si Thomas nous voyait!, e eu sentia calafrios ao folhear aquelas páginas e encontrar gravuras que me faziam derramar rios de suor, dos cabelos às bochechas e ao pescoço: mulheres de pouca idade levantando as saias para mostrar traseiros de ofuscante brancura, oferecidas ao ultraje de machos lascivos - e tampouco sabia se me perturbavam mais aquelas rotundidades despudoradas ou o sorriso quase virginal da jovem, que virava impudicamente a cabeça para seu profanador, com olhos maliciosos e um sorriso casto a lhe iluminar o rosto, emoldurado por cabelos corvinos dispostos em dois coques laterais, ou, bem mais terríveis, três mulheres em um divã que abriam as pernas, mostrando aquela que deveria ser a defesa natural do seu púbis virginal, uma oferecendo-a à mão direita de um macho de cabelos desgrenhados, que, enquanto isso, penetrava e beijava a desavergonhada vizinha, e, da terceira, ignorando-lhe a virilha exposta, abria com a mão esquerda o decote levemente licencioso, puxando-lhe o corpete. Depois encontrei a curiosa caricatura de um abade de rosto verruguento que, visto de perto, mostrava-se composto de nus femininos e masculinos variadamente enroscados e penetrados por enormes membros viris, muitos dos quais pendiam enfileirados sobre a nuca, como que para formar, com seus testículos, uma espessa cabeleira que terminava em cachos graúdos.Não recordo como acabou aquela noite de sabá, quando o sexo me foi apresentado em seus aspectos mais tremendos (no sentido sagrado do termo, como o ronco do trovão que suscita, junto ao sentimento do divino, o temor do diabólico e do sacrílego). Recordo somente que saí daquela perturbadora experiência repetindo em voz alta, como uma jaculatória, a frase de não sei qual escritor de coisas sacras que, anos antes, o padre Pertuso me fizera decorar: 'A beleza do corpo está toda na pele. De fato, se os homens vissem o que está sob a pele, a simples visão das mulheres lhes resultaria nauseabunda: essa graça feminina não passa de sujeira, sangue, humor, fel. Considerem o que se escondem nas narinas, na garganta, no ventre... E nós, que não ousamos tocar sequer com a ponta dos dedos o vômito ou o estrume, como podemos então desejar estreitar nos nossos braços um saco de excrementos?'". (p.84)
"Naqueles anos (creio ter sido em 1885 ou 1886), conheci no Magny aquele que continuo a recordar como o doutor austríaco (ou alemão). Agora volta-me à mente o nome, chamava-se Froïde (acho que se escreve assim), um médico com seus 30 anos, que certamente só ia ao Magny porque não podia se permitir algo melhor e que fazia um período de aprendizado com Charcot." (p.47)
A trama parece muito boa. Umberto Eco, definitivamente, escreve muito bem. Por que não consegui terminar de ler? Boa pergunta! Fiquei pensando nisso enquanto transcrevia os trechos acima. Talvez seja um livro muito denso. O livro tem quase 500 páginas. Geralmente um livro de 500 páginas tem outro ritmo de leitura. Neste, a leitura anda devagar, pesada, concentrada. Talvez seja isso. Talvez não. Se você gostou dos trechos que eu transcrevi, vá em frente e leia. Não esqueça de me contar como foi a experiência.
ECO, Umberto. O Cemitério de Praga. Rio de Janeiro: Record, 2012.

A descrição dos judeus e dos padres são impagáveis! Tem coragem o Umberto Eco, hein? Tentarei ler esse livro mais adiante e, meu conselho, dê um tempo, mas não desista dele. Talvez só não tenha sido este o momento. Ah, adorei o trocadilho do título da postagem.
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