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| Fotografia: Emma Tommas |
Nunca vi uma
vaca que se questionasse a respeito do porquê dela ser uma vaca e pastar e
ruminar o dia inteiro, e nem que tivesse inventado uma maneira criativa de
fazê-lo. Mas, também, nunca vi uma vaca assassinando outra vaca, nem vacas
malhadas se unindo para acabar com as demais, por causa da posse de um
território verde, nem vacas consumindo ferozmente o planeta onde vivem. Enfim,
uma vaca é simplesmente uma vaca. Jamais irá compor uma sinfonia, pintar um
quadro ou escrever um livro. Ela simplesmente pasta o dia todo sem se preocupar
se as dimensões da sua cintura estão dentro dos padrões estabelecidos para as
vacas, simplesmente porque eles não existem. Se existe algum padrão, é aquele
estabelecido pelo homem, que determina se ela está boa ou não para o abate. Ela
entra em período fértil, copula e reproduz. Não vai se confessar após a cópula
e não fica se perguntando se o touro achou que ela é uma vaca fácil porque deu
pra ele no primeiro encontro. E o touro não irá se vangloriar para os amigos
contando que em apenas uma semana ele cobriu um rebanho inteiro. Alguns humanos
poderão usar este exemplo como justificativa para suas puladas de cerca,
alegando que a poligamia dos machos é uma lei da natureza, mas não quero entrar
no mérito da questão.
É interessante notar que, apesar de
usar papel higiênico perfumado e com flores em alto relevo, as funções
excretoras dos humanos não diferenciam em nada das dos demais animais e, apesar
de ter utensílios para levar o alimento à boca e ter criado um compêndio de
boas maneiras à mesa, o ser humano precisa se alimentar como qualquer outro
bicho. É bem verdade que não é mais necessário que se saia à caça de alimentos,
pois eles estão dispostos em prateleiras iluminadas e climatizadas, bem ao
alcance das mãos. Compramos animais que já vêm mortos, esfolados e desossados,
prontos para serem cozidos. Mesmo com o surgimento do casamento, da família
nuclear e de várias regras para o flerte, que variam de acordo com a cultura de
cada sociedade, é interessante notar que o acasalamento humano se dá da mesma
forma no mundo inteiro e é bem semelhante ao de muitas espécies. Ou seja, por
baixo do fino verniz civilizatório que recobre cada um de nós, somos
essencialmente animais.
Essencialmente animais não quer
dizer que sejamos puramente animais. Apesar de fazermos parte do reino animal,
temos uma coisinha chamada razão, que nos diferencia dos demais. A razão
capacitou o homem para sobreviver na natureza dominando-a e sobrepondo-se a
esta. Desta forma, ele deixou de integrar as leis naturais como antes, pois se
colocou no topo da cadeia alimentar e não depende mais tão diretamente das
condições naturais para sobreviver. Dominou o fogo, inventou a calefação e
roupas especiais para frios intensos e, do mesmo modo, refrigeração para
temperaturas elevadas. Com a agricultura ele já não dependia exclusivamente da
caça. Inventou instrumentos que o possibilitaram alcançar seu sustento e de sua
família e, com o aprimoramento de
ferramentas, alcançou safras gigantescas. Aprendeu a armazenar água e inventou
sistemas de irrigação que, junto com a
agricultura, possibilitaram-no fixar-se em um mesmo lugar. Inventou a lâmpada,
o telefone e o tanque de guerra. E inventou também o CD, o DVD e os mísseis de
precisão.
Quando nascemos, recebemos uma carga
genética que irá nortear boa parte da nossa vida. O ciclo biológico de
desenvolvimento pelo qual todo indivíduo passa ao longo da sua vida é como um
script pré-programado, que vem na forma de um coquetel de substâncias que
integram o corpo humano. Através da Antropologia, conseguimos entender porque a
animalidade em nós ainda é tão forte. Cronologicamente, o espaço que nos separa
do reino animal é extremamente curto. O ser humano é uma mistura curiosa de
genética e cultura. Esta última seria a responsável por ter refinado nossos
instintos animais:
“O
ser humano se diferencia das outras espécies animais, pois, enquanto estes inscrevem-se
apenas na natureza, ele se inscreve na natureza e na cultura.
A força que move os animais e os impele em
busca de satisfação é o instinto, caracterizado por sua fixidez em
termos de determinação e de objeto.
Freud postula a existência de forças que
impelem o ser humano. Mas elas também tiveram um desenvolvimento com relação
aos instintos. Essas forças têm o nome de pulsões.
Pulsão (Trieb, em alemão) é diferente
de instinto (Instinkt). Existem muitas traduções que confundem estes
dois conceitos, escamoteando a distinção fundamental feita por Freud.”
É,
Freud estava certo ao diferenciar o instinto nos humanos e nos demais animais,
porque nos humanos eles passam pelo crivo da razão. Isso não quer dizer que a
pulsão é menos intensa que o instinto. Temos impulsos para fazer muitas coisas
que acabamos não fazendo, pois foram desaprovadas pela razão. Criamos então as
neuroses, das quais nenhum outro animal sofre. Com a razão, criamos também uma
infinidade de necessidades impulsionadas
pelo consumo e passamos a viver com o objetivo de suprir tais necessidades. O
problema é que a cada dia vão sendo inventadas mais e mais necessidades, e
acabamos escravos na tentativa frustrada de suprir todas elas. O que muitas
vezes não nos damos conta, é que a maioria delas remetem às mais primordiais
necessidades animais, garantidas pelos instintos. É difícil encontrar uma
propaganda que não aluda fome ou sexo. Apesar de o homem ter atravessado uma
revolução tecnológica incrível, os objetivos continuam sendo os mesmos dos
tempos das cavernas, ou seja, a sobrevivência individual e a sobrevivência da
espécie. Tendo em vista isso e também os efeitos nefastos que a tecnologia
trouxe, cabe a pergunta: para que serve mesmo o progresso?
Há muito se
discute se o homem é bom ou mau por natureza. No momento, consigo pensar em
dois caminhos possíveis à humanidade. No primeiro deles, não há mudanças
significativas, a não ser as tecnológicas, o que vai resultar na exaustão dos
recursos naturais do planeta e acarretará a extinção de qualquer forma de vida
conhecida até agora. No segundo, e menos provável, a humanidade usa a sua razão
de maneira benéfica para si e para o todo, vivendo todos felizes para sempre.
Ops, esqueci que, apesar de inteligente, o homem também morre!